Reflexão


"Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual. Ser real é isto" - Alberto Caeiro

"A imaginação é a rainha do real e o possível é uma das províncias do real" - Charles Baudelaire

Tuesday, February 8, 2011

O Rio de Janeiro e o jeitinho brasileiro



A ação do governo carioca tem pouco a ver com os cidadãos daquele estado. A forma com que o governo vem atuando é para “fazer bonito” na Copa de 2014. Depois, tudo fica “como dantes, na terra de Abrantes". Como exemplo, temos o Pan Americano de 2007, que foi elogiado por sua organização e segurança, mas depois tudo voltou ao “normal”, ao ponto de as Forças Armadas voltarem recentemente à cidade maravilhosa, mas agora para ficar.

Claro, há algo novo neste governo: as UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora – que estão dando alguns resultados nas favelas já instaladas . Todavia, um problema é a falta de perspectiva destes policiais (das UPPs), que sabem que ganharão pouco e não terão equipamentos adequados para seu trabalho. Tal policial será assediado, provavelmente pelas milícias cariocas.

Também não podemos negar a importância de se usar a logística das Forças Armadas brasileiras em regiões em conflito, como no tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O armamento dos traficantes é, muitas vezes, do mesmo nível de muitos Exércitos da América Latina. Por este motivo, há necessidade de um equipamento mais robusto, por parte da policia carioca, como por exemplo, os blindados e helicópteros da Marinha e da Aeronáutica. Assim, os policiais terão os instrumentos necessários para seu trabalho e claro, para proteger suas vidas.


É fato que as organizações criminosas (Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando) devem realmente perder seus territórios. Todavia, não há um debate sobre as milícias, que dominam mais territórios do que essas organizações. O problema da milícia encontra-se em sua origem. Ela é formada por policiais, bombeiros, entre outros agentes do governo, que estão na ativa ou não. As milícias atuam como organizações criminosas e para exterminá-las será necessário mais que uma ação de ocupação de áreas conflagradas. Necessitar-se-á de uma reforma da própria polícia militar do Rio de Janeiro - em todas suas as esferas e repartições.

Outra preocupação é com as Forças Armadas. É de conhecimento de todos que a função das Forças é focada para proteção da soberania nacional. Quando há distúrbios generalizados e o Estado não consegue mais manter a lei e a ordem social, é possível o uso das Forças Armadas para o que se chama de GLO – Garantia da Lei e da Ordem (policiamento urbano), como um instrumento para garantir os preceitos constitucionais – e só.

Depois da ocupação do Complexo do Alemão, em 28 de novembro de 2010, com apoio da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, as Forças Armadas efetivarão uma força de paz semelhante ao do Haiti (Rio Força de Paz). A elaboração e efetivação de uma Força de Paz no próprio território é reconhecer que um estado Federativo encontra-se falido em suas garantias mínimas ao cidadão, o que inclui segurança pública. Uma missão desta envergadura deve ser vergonhosa para os inúmeros administradores públicos da cidade maravilhosa, pois ficou evidente a péssima condução da coisa pública. A ação das Forças Armadas deve vir com autuação destes políticos, e do atual governador, por ingerência na administração, pois o cidadão carioca paga caro (como todos) os impostos. Agora o Estado brasileiro deve gastar mais por aquilo que não foi feito? Sim, deve, pois é necessário, mas porque os governadores não investiram antes? É algo que deve ser investigado de forma profunda pelo Ministério Público.

O que tangencia os atos de muitos políticos é este jeitinho brasileiro - aqui expresso na política carioca. Agora o governo ficou “livre” da responsabilidade de garantir segurança pública para uma parte da população, que ficará sob o manto de uma missão de paz. Também há muita média com a mídia, ao dar uns trocados a mais aos polícias das UPPs, que ficaram em casebres observando as coisas acontecerem. Enquanto o problema estrutural do estado será delegado para o futuro, ou seja, a questão do abismo econômico entre os pobres e os mais ricos. O estado carioca de forma direta incentiva tal lacuna ao não conter a corrupção nos órgãos do governo, ao não investir de forma séria na educação pública (pífia em todas as suas esferas), na saúde pública (literalmente um inferno para os menos favorecidos).

Esse jeitinho de que “no meu governo eu inventei a roda” não cabe mais no Brasil que sonhei. Cabral não precisa mais descobrir o Brasil, mas ser sério ao resolver os problemas sociais. Isso significa menos discursos e mais educação e transparência das questões públicas.

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