Reflexão


"Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual. Ser real é isto" - Alberto Caeiro

"A imaginação é a rainha do real e o possível é uma das províncias do real" - Charles Baudelaire

Saturday, March 27, 2010

O Caso não é apenas em Cuba



Recebi uma informação direto de Cuba que tem o seguinte teor: A Espanha ofereceu asilo político ao Orlando Zapata Tamayo que, no dia 23 de fevereiro, do ano corrente morreu por causa de uma greve de fome. Orlando Zapata Tamayo não aceitou a oferta espanhola, pois queria do governo cubano dinheiro e uma casa. Se tais fatos são totalmente verídicos é difícil afirmar. O fato que Zapata queria do governo dinheiro e uma casa, retira-o da condição de preso político. Mas mesmo assim, não podemos admitir dentro da lógica dos Direitos Humanos a morte de um preso comum - que fazia greve de fome. O governo não poderia permitir que tais atos chegassem ao extremo, isto é, que uma pessoa morra por não querer comer.

Com respeito à postura do governo, em especial do Lula sobre o caso, foi no mínimo imprudente. Até se pode compreender que Lula não tenha feito uma forte crítica ao governo cubano, pois no ato da morte de Zapata, Lula estava em visita oficial ao país. Mas opinar a favor do governo cubano em permitir a morte do preso, seja ele político ou comum, é macular a imagem do Estado brasileiro que tem sua agenda internacional marcada pelo pacifismo.

Mas o caso da morte de Zapata em Cuba me faz lembrar que os vários ataques a civis palestinos feitos pelo Estado de Israel são violações aos Direitos Humanos. E mais, que os ataques feitos por grupos palestinos em prol de um Estado Palestino a população civil israelense também são violações aos Direitos Humanos.

A invasão dos EUA no dia 07 de outubro de 2001 ao Afeganistão - que já matou milhares de civis - considero violações aos Direitos Humanos; assim como a invasão dos EUA no dia 19 de março de 2003 ao Iraque, que já matou milhares de crianças, mulheres e idosos também podem ser considerados violações aos Direitos Humanos. A base militar dos EUA em Guantánamo, usada como presídio para pessoas (apenas) suspeitas de terrorismo é uma violação aos Direitos Humanos.

No Brasil a violência policial cometida pelas instituições de segurança pública, em especial a polícia militar, em todo o território nacional contra a população civil são violações aos Direitos Humanos; assim como a situação dos 470 mil presos que estão nas cadeias e presídios no Brasil, sem condições mínimas de higiene, são violações aos Direitos Humanos.

A corrupção em qualquer esfera (público ou privado) deve ser considerada violação aos Direitos Humanos, pois o político ao retirar dinheiro público que seria investido em saúde, educação, em bens públicos em prol de seus interesses privados são violações aos Direitos Humanos.

A morte de Zapata em Cuba projeta luz há uma rede de violações aos Direitos Humanos no mundo. Mas muitas dessas violações são realizadas por países considerados como o de "primeiro mundo" e de tradição democrática. Todavia, quando esses países cometem tais barbaridades contra civis e crianças não há nenhuma queixa ou revolta das organizações internacionais.

Wednesday, March 17, 2010

Conjuntura política: Dilma versus Serra e a consolidação da democracia brasileira






Com os últimos números da pesquisa Datafolha, José Serra (PSDB) com 32%, Dilma (PT) com 28%, Ciro Gomes (PSB) com 12% e Marina (PV) com 8% das intenções de votos (Folha de São Paulo: 28/03/2010), provavelmente haverá uma mudança na estratégia do PSDB para as eleições presidenciais de outubro. O governador do estado mais rico do país, José Serra, corre o risco de perder no primeiro turno se a “onda” de otimismo em prol da campanha da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, aumentar. Tudo indica que Serra irá entrar no jogo de uma campanha eleitoral “plebiscitária”, ou seja, fará um debate comparando as duas gestões (os oitos anos do PSDB x os oito anos do PT).

Provavelmente, José Serra entrará nesse jogo político de comparações entre governos, mas dificilmente conseguirá criar uma unidade discursiva dentro do PSDB . O “tucano” terá a difícil missão de lidar com comparações – na esfera nacional - e ao mesmo tempo terá que debate as mudanças do seu governo – em São Paulo - apontando quais serão as novidades de uma gestão social-democrata no planalto. E mais, Serra tem que mostrar que não irá herdar a herança política de FHC, como por exemplo, a falta de emprego e a fragilidade política externa. Esperamos que sua estratégia de enfretamento aos petistas não seja pautada por uma agenda negativa, cujo discurso pauta-se apenas pela desqualificação do adversário.

No caso do PT é mais fácil, pois Dilma Rousseff não representa a si, mas uma proposta de continuação das políticas sociais e econômicas. Nesse sentido, time que está ganhando não se mexe. Desde janeiro do ano corrente a candidata não sai das manchetes e de alguns programas televisivos, isso explica sua fervorosa popularidade e claro, o apoio e patrocínio político de Lula será fundamental para sua vitória em outubro.

O fator mais importante desse processo eleitoral é que a consolidação, depois de 25 anos da efetivação da Nova República, temos vários candidatos envolvidos com o processo democrático. O envolvimento dos principais pré-candidatos (Serra, Dilma, Ciro e Marina) é um demonstrativo do fortalecimento das instituições políticas no Brasil, que somando com a ascensão econômica coloca o país entres as maiores democráticas no mundo.

Sunday, March 14, 2010

Mais um golpe do Ocidente no Irã



Em abril de 1951, Muhammad Mossadegh foi eleito primeiro ministro do Irã e apoiou a nacionalização do Petróleo. A nacionalização do “ouro negro” foi feita pelo parlamento iraniano. Tal ato não deixou apenas constrangido o monarca Xá Reza Palhevi - filho de Reza Xá Palhevi que conquistou o poder no país em 1925-, mas principalmente as empresas norte-americanas e inglesas que exploravam petróleo na região desde o início do século XX.

A Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo era o nome de “fachada” dado a união das empresas de petróleo dos EUA e do Reino Unido. A relação de exploração e a cooptação dos políticos iranianos (antes de Mossadegh) era tão umbilical que as empresas tinham seguranças próprios para acabarem com as manifestações dos iranianos que lutavam contra a exploração do imperialismo Ocidental. Para agradar as Companhias de Petróleo, a elite iraniana, através do Xá decretou que todos os estrangeiros (incluído os funcionários das empresas petrolíferas), estariam beneficiados pela extraterritorialidade, ou seja, estavam acima da lei iraniana. Tal decreto provocou a ira dos dirigentes religiosos e da população como um todo.

Segundo Matthew S. Gordon, historiador norte-americano, a Agência Central de Informação (CIA) dos Estados Unidos e o M-16 (serviço secreto inglês), elaboram uma campanha mundial de difamação de Muhammad Mossadegh, acusando-o de autoritarismo, fanatismo religioso e de corrupção. Tal campanha fez com que muitos países não comprassem mais petróleo do Irã. Tal situação piorou a economia iraniana, provocando instabilidade financeira, mas – mesmo assim – boa parte da população apoiou o governo de M. Mossadegh. Neste momento o Xá foge do país e a sua volta ocorre em agosto de 1953, quando apoiado pela CIA, M-16 e por mercenários (Operação Ajax) organiza um golpe de Estado. Enfim, M. Mossadegh sai do poder e as empresas petrolíferas retornam ao comando do governo no país.

Para evitar uma nova nacionalização do petróleo ou qualquer crítica ao seu regime (que era apoiado pelos EUA), o Xá Reza Palhevi criou em 1957, com apoio “técnico” dos israelenses a SAVAK - polícia secreta do Irã que tinha como método a tortura.

Depois de alguns anos e sem criatividade, os EUA planejam a mesma estratégia: difamar o governo iraniano, pois o mesmo busca ter um espaço nas relações internacionais. Depois de invadir o Afeganistão em 2001, o Iraque em 2003, agora querem invadir o Irã, argumentando que o mesmo quer produzir armas nucleares. Lembro que tal argumento foi feito para invadir o Iraque e meses depois se descobre que tal discurso era infundado - na realidade o Iraque não tinha meios para produzir armas de destruição em massa. O Iraque tinha, na realidade, somente algumas armas químicas. Armas que foram vendidas pelos EUA e pela Europa para combater o Irã e na Guerra Irã e Iraque (1980-1988). Como é sabido, o uso de armas químicas foi proibido depois da I Grande Guerra Mundial.

Voltando ao Irã. M. Ahmadejad erra em não reconhecer o Holocausto, assim como W. Bush errou ao querer induzir que todo muçulmano é terrorista. Mas, no caso do Irã, o discurso equivocado do seu presidente não pode significar que o Estado iraniano não possa investir em tecnologia nuclear para fins pacíficos.

Um fato que se comenta pouco é que o Estado de Israel, do Paquistão e da Índia já tem as tais bombas atômicas, mas não ocorreram embargos ou sanções da ONU a esses países. Aliás, o Paquistão e a Índia lutam pela região da Caxemira e, pelo menos até gora, não usaram tais armas. A lógica encontra-se na linha ideológica, no caso, Israel e Paquistão são países que apoiam os EUA.

O que está em jogo nesse cenário não é apenas as famigeradas reservas de petróleo do Irã, mas a quem elas se destinam - no caso para a China. Os EUA, temendo o avanço dos chineses na região, querem cortar o fornecimento de energia para os “comunistas”, assim, provocando uma morosidade no parque industrial e bélico da China. Os chineses percebendo a estratégia dos Yanques se posicionaram contra as investidas americanas para conquistarem novos embargos contra o Irã.

O cenário mais provável é uma invasão dos EUA no Irã, iniciando mais um conflito no Oriente Médio. A questão encontra-se: será que os EUA conseguirão suportar uma terceira frente de batalha com um Estado a modo espartano? Há cerca de 100 mil soldados da Guarda Revolucionária dispostos a lutarem pelo seu país, do outro lado, há quantos americanos cientes que morrerão pela ganância financeira de seu país?

Monday, March 1, 2010

Malvinas ou Falklands? Uma oportunidade para a liderança do Brasil na América Latina.




A disputa pelas Malvinas ou Falklands, entre a Argentina e a Inglaterra não é um acontecimento recente. O fato começou quando, em 1833, a Inglaterra invadiu a região retirando cerca de 30 argentinos das ilhas.

Mas o fato que ficou mais conhecido no mundo sobre essa disputa, foi à guerra das Malvinas que ocorreu em 1982, quando os argentinos, através da Operação Rosário, atacaram as ilhas para reconduzi-las a soberania da Argentina. Depois de alguns combates, o Reino Unido vence a guerra, com apoio dos EUA, do Chile e da OTAN. No confronto morreram 649 soldados argentinos, 255 soldados dos britânicos e 3 civis do arquipélago.
Na Argentina, a junta militar de direita perdeu todo o apoio que recebeu dos argentinos – no fervor do patriotismo. Já na Inglaterra, é reeleita a protagonista do neoliberalismo na Europa, Margareth Thatcher, que utilizou a vitória sobre as ilhas como material de campanha.

Atualmente, o arquipélago vive um momento de crescimento econômico. O PIB da região passou de 5 bilhões de libras (em 1982) para 105 bilhões de libras (em 2010). Com a exploração do petróleo, há uma perspectiva de forte impacto na economia local. Claro, o governo argentino está preocupado com a escassez do petróleo no mar do norte. Assim, a família Kirchener reabriu novamente o debate sobre a soberania do arquipélago, visando um interesse estritamente econômico. A descoberta e exploração de petróleo na região, trará (novamente) relevância às esquecidas ilhas, que por um longo período da história só gerou gastos e produziu lã. Os argentinos assinaram um acordo de exploração de petróleo com a Inglaterra, em 1995, mas rompido em 2007.

No que o governo brasileiro se propõe - ser um líder regional e conquistar um assento no Conselho de Segurança da ONU-, foi acertada a defesa do presidente Lula. O Brasil mostrou apoio à Argentina - que busca incorporar as ilhas a sua bandeira -, ao mesmo tempo em que reforça seus laços com os países da América Latina, destacando-se como representante dos mesmos.

No sentido de autodeterminação dos povos, há um problema: a requisição argentina. Os mais de 2.500 habitantes (Kelpers) das ilhas não querem mudar a atual situação, ou seja, querem continuar como um protetorado inglês, mesmo que a pátria mãe esteja a 14 mil km de distância.

Friday, February 26, 2010

Um golpe no processo democrático latino-americano









Conhecida como década perdida os anos de 1990 se caracterizou pelo projeto neoliberal na América Latina. Privatizações e instabilidade social foram à tônica das relações sociais, principalmente na América do Sul. Posteriormente, na entrada do século 21, a América do Sul conseguiu engendrar uma onda política de presidentes a lá esquerda. Muitos desses políticos foram reeleitos. O presidente mais polêmico desta seara é com certeza Hugo Chávez. O venezuelano é citado quase que diariamente pelos jornais e sites brasileiros. Muito se escreve e critica sobre os seus 11 anos de governo e sua ingerência administrativa. Todavia, sinto falta de um debate mais profundo sobre o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vélez. Ele está no poder desde 2002, ou seja, completa 8 anos no governo e não conseguiu implementar o que propôs nesse longo período - acabar com os grupos armados no país. A amostra de que sua proposta política é ineficiente, está na concessão das bases militares para os EUA, isto é, Uribe abriu mão da soberania colombiana para efetivar algo que não conseguiu nos seus 8 anos de mandato.

Vamos aos fatos: Uribe foi eleito para governar a Colômbia entre os anos de 2002 até 2006. No sistema eleitoral colombiano não era permitido a reeleição, até que nas eleições de 2006, Uribe consegue manipular a Corte Constitucional do país e aprovar uma mudança na Constituição que lhe permitiu disputar o pleito eleitoral, sendo assim, reeleito. Neste ano, faltando poucos meses para as eleições presidenciais – que ocorrerão em 30 de maio - Uribe tenta pleitear seu terceiro mandato. A iniciativa de Uribe vai contra a Constituição do país – que ele mesmo já tinha mudado em 2006. O presidente colombiano, além de permitir que os EUA ocupem áreas estratégicas no país, aceita que os Yankees manipulem as decisões políticas que tem como objetivo golpear a democracia conquistada pelo povo colombiano, depois de anos de guerra civil. Imagino que se o governo Lula fizesse o mesmo no Brasil, seria tratado como golpista e antidemocrático. Mas fico admirado que nossa imprensa não cite ou trate muito superficialmente o revés democrático que a Colômbia vem passando nos últimos anos.

Quais são os verdadeiros motivos para que o processo político colombiano fique a margem do debate da imprensa brasileira? Se Uribe é um presidente que aceita a democracia como forma de governo, porque ele quer se perpetuar no governo? Se a Colômbia é um país soberano, quais são os motivos da interferência direta dos EUA na região? E mais, o problema na Colômbia é militar ou social? São perguntas que qualquer latino-americano deveria fazer, pois como já vivenciamos – em décadas recentes - as mazelas das políticas neoliberais americanas, devemos discutir de forma exaustiva o futuro da nossa América do Sul.

O governo brasileiro é um exemplo de compromisso com a Democracia ao respeitar a sua Constituição e manter uma estabilidade política por mais de 24 anos.

Friday, February 5, 2010

O reaparelhamento das Forças Armadas

Não temos como fugir do assunto. A questão relativa à compra dos caças preencheu o espaço dos vários meios de comunicação no Brasil e manchetes surgiram em jornais internacionais. O governo deve aceitar o relatório feito pela Força Área Brasileira (FAB) ou fazer uma escolha pautada pelo viés político?


Segundo a FAB o avião mais barato e com revisões acessíveis ao orçamento do ministério é o caça sueco Saab da Gripen NG, posteriormente vem o F/a 18 da Boeing, norte-americana e depois o Francês Rafale da Dassault Aviation. Os investimentos para a compra dos 36 caças podem chegar a 10 bilhões de reais. Esse investimento pode tirar o país da oitava posição que se encontra no quesito: gastos com defesa na América Latina. Reproduzo alguns dados publicados na revista: Defesa Latina, ano 1, nº 1, p.09.









Como exposto acima, o Brasil não investe na renovação e na ampliação das Forças Armadas. Todavia, o governo brasileiro resolveu fazer uma aliança estratégica com a França. Com o país europeu já há dois compromissos de alto valor financeiro e cientifico. O primeiro: o Brasil - junto com os franceses - irá construir 51 helicópteros EC-725 para as Forças Armadas. O segundo: uma cooperação para a construção de submarinos Scopène, um será movido com energia nuclear. Mesmo assim, só com muito investimento na área do desenvolvimento de material bélico e da pesquisa no setor de defesa que o país terá um poder maior de persuasão na América do Sul. Com essa ligação mais estreita com a França, somada a questão que o caça sueco ainda é protótipo, tudo indica, que os 36 caças que serão escolhidos virão da França.


Há uma outra questão que não está na pauta dos jornais e nem do governo: nossa falta de autonomia bélica. Dependemos da compra de armamentos de outros países para suprir nossas necessidades militares, o que evidência a falta de investimento em nossas Forças Armadas e em tecnologia. A Marinha em breve será uma força terrestre, pois sua frota estará sucateada daqui uns 50 anos, ou menos. A Aeronáutica tem como vitrine os pequenos e bonitos A-29 Super Tucano, todavia são lentos e atrasados em vista dos aviões dos países do primeiro mundo, e mais, algumas peças desses aviões são feitas nos EUA. Com relação ao Exército, às notícias também são tristes, vários soldados são desligados da instituição, pois há o famoso excesso de contingente, outros saem da instituição para ganhar o pão de cada dia na iniciativa privada.
Devemos frisar que o Brasil tem uma área de 8.511.965 Km2 e uma população que já passou dos 190 milhões de habitantes e está entre as 10 economias mais importantes do mundo. Mesmo com um efetivo de 288.500 mil militares na ativa, sendo que cerca de 190.000 mil estão no Exército, há uma baixa inserção da tecnologia nos treinamentos e nas armas utilizadas pelos militares.
Assim, nossa Força vai rastejando em meio ao discurso de um país moderno, mas treina seus soldados com flechas e camuflagem a guache. O reaparelhamento das Forças Armadas é urgente e contribuirá para a melhor segurança de nossas fronteiras, impedindo a entrada de armas e drogas no país, assim como, dará respaldo político para as ações do governo. Claro, devemos buscar a modernização das Forças na compra de produtos nacionais, reativando as indústrias bélicas, como exemplo: Engesa e Avibrás, oportunizando independência dos armamentos estrangeiros e produção de emprego.

Thursday, February 4, 2010

O ciclo da cana: seu novo aspecto ambiental e social


A história do Brasil está marcada pela exploração. No primeiro século de existência (1501 - 1600), temos a retirada em grande escala do Pau-brasil. Todavia, um fator importante que marca esta época é a introdução, em 1534, da cana-de-açúcar por Martins Afonso de Souza. Produto que foi exportado para a Europa em grande escala, ofertando um grande lucro para a Metrópole, ou seja, Portugal.

O sistema era o plantation, isto é, latifúndio mais monocultura. Essa forma de produção agrícola só ocorreu, entre outros elementos, por que a Metrópole ofereceu grandes extensões de terras sem cobrar por elas. Essas terras foram retiradas à força dos nativos para serem entregues aos seus "novos" proprietários, que naquele momento eram concedidas pelo rei a um donatário e pela mão de obra barata, - que como sabemos era pautado pelo escravismo indígena e africano. Serão estes dois fatores - terra e mão de obra barata - os principais elementos do sucesso econômico da plantation açucareiro na Colônia Brasil. Mas qual é a diferença operacional do início da produção de açúcar na Colônia para o atual momento do Brasil?

Atualmente, a terra contínua barata para os usineiros. Eles estão comprando e arrendando terras, em boa parte dos municípios do interior de São Paulo, como por exemplo, em Rio Claro. A mão de obra para o plantio da cana é quase que, exclusivamente, do interior do nordeste brasileiro. Esses trabalhadores da terra, conhecidos na história como "boias-fria", ganham uma insignificância perto dos lucros dos usineiros, além disso, cada trabalhador necessita cortar no mínimo dez toneladas de cana por dia para se manter empregado, e quando não atingem este valor, são obrigados a voltar para o seu local de origem.

Os alojamentos (senzalas modernas) desses trabalhadores são precários, como foi discutido no Seminário - Agroindústria Canavieira: trabalho, trabalhadores e processos sociais; que ocorreu entre os dias 17 e 18 de outubro de 2007 na Unicamp. Os alojamentos abrigam normalmente quarenta homens, que dividem um espaço insuficiente entre sim, geralmente não há banheiro para todos e muito menos um espaço para lavar suas roupas decentemente - eles voltam do trabalho com a roupa toda preta por causa da queima da cana.

Neste sentido, podemos dizer que a escravidão não acabou, mas apenas se modernizou. Outro fator relevante é que o plantio da cana de forma intensiva tem um forte impacto ambiental e social. Primeiro, a queima da cana produz uma fuligem que contribui para o aumento dos problemas respiratórios, principalmente em crianças; segundo, o cultivo da cana esgota boa parte dos nutrientes minerais da superfície do solo; terceiro, provoca erosão e destruição da mata ciliar.

Assim, o discurso do álcool ou etanol não pode ser qualificado como um biocombustível. Esses discursos convergem na afirmação de que o biocombustível tem um menor impacto ao meio ambiente, mas como afirmamos, o local de plantio é totalmente degradado pela monocultura da cana e, além disso, sua produção provoca uma situação de trabalho deplorável ao ser humano, semelhante ao do início da colonização. De 2004 até o final de 2007, já morreram mais de vinte e um cortadores de cana, os quais, tudo indica, por trabalho exaustivo. Podemos classificar esta política econômica, que tem suas bases no agrobusiness, como a venda de nossos produtos agrícolas sem levar em conta seus impactos ambientais e sociais. É por isso que o produto fica com um preço acessível para o mercado externo.

Wednesday, February 3, 2010

O DIREITO AO ABORTO





Cada vez mais o debate sobre o aborto torna-se um tema relevante no Brasil. Há discussões a respeito no Congresso Nacional, nos meios de comunicação e na sociedade civil. Todavia, quando ocorre àquela famosa pergunta: você é favor do aborto? Somos tencionados a uma resposta negativa, ou seja, é quase certo que sua resposta seja não. Mas se a perguntar for: você é favorável à descriminalização do aborto? Você provavelmente perguntará o significado disso.

Descriminalização do aborto significaria a autonomia da mulher perante seu corpo, muito diferente do que acontece hoje. Descrevo dois exemplos: o primeiro encontra-se nas várias revistas sobre beleza, onde o corpo da mulher é dominado pelo mercado e pela indústria de cosméticos; o segundo está em nossa legislação, pois o aborto é considerado crime (salvo por situações de estupro e risco de morte da mãe), mas essa lei acaba se tornando inócua, já que muitas mulheres continuam a realizá-lo.

As mulheres com maior poder aquisitivo vão a países que já conferem a mulher autonomia perante o seu corpo, como exemplo: Estados Unidos, Rússia e França e lá realizam a cirurgia. Enquanto um outro grupo - bem maior - faz o aborto em casa, usando como ferramenta a agulha de crochê ou ainda, pagam a pseudo-médicos por uma cirurgia sem garantia alguma.


Não é preciso trazer dados estatísticos, são as mulheres pobres as mais afetadas pela criminalização do aborto. Elas tem, cotidianamente, sua dignidade atacada pelo Estado, que não criou um programa nacional de controle da natalidade e não fornece uma rede hospitalar de qualidade ou programas de planejamento familiar. Dessa forma a maior parte dos abortos que ocorrem no Brasil, pode ser o resultado perverso da falta de eficiência da máquina pública. E mais. As mulheres, muitas vezes, tomam esta atitude por falta de condições financeiras, isto é, elas temem não conseguir alimentar e educar seus filhos. Dessa forma, esse último ato, o de realizar o aborto, deve ser compreendido como o ato de maior angústia para uma mulher.

Já as críticas contra a autonomia das mulheres partem, geralmente, de fanáticos religiosos ou de moralistas, que persistem em uma moral do século 13. Ser adepto a uma religião é algo ligado à esfera privada, já o debate da descriminalização do aborto é uma discussão do Estado e o nosso Estado - diferente de alguns que existem no Oriente Médio - é laico. Acredito que o debate não é esse. A questão da descriminalização do aborto passa pelo debate sobre políticas públicas e concomitantemente pela autonomia que as mulheres deveriam ter perante seu corpo.

Monday, February 1, 2010

PELA TRANSFORMAÇÃO DO INDIVÍDUO


Florestan Fernandes



Tenho o entendimento que Florestan Fernandes (1920 a 1995) é o maior sociólogo do Brasil, não porque concordo com seu pensamento na sua totalidade, muitas vezes é o contrário, discordo ferrenhamente dele. Brigo, faço anotações e rabisco ao lado do texto entre outras ponderações feitas aos artigos e livros do saudoso sociólogo. O texto: Nova República? É um exemplo desse conflito silencioso realizado ao tardar da noite. Lembro que o referido artigo (hoje livro) foi escrito no calor da hora – em 1985 - e se bem lido, ficará evidente que boa parte do seu diagnóstico feito à nova república não ocorreram, melhor, aconteceu tudo ao inverso do que previa o sociólogo – na minha interpretação. Mas sem dúvida nenhuma, ele proporcionou questões e abordagem distintas, e originais. Diferente do que ocorre hoje na academia, donde um amontoado de reproduções e mais reproduções são chamados de dissertações e teses ou nas escolas de ensino fundamental e médio do qual o mote é soletrar um livro didático.

Florestan foi um intelectual não somente por que escreveu obras fundamentais sobre nossa cultura e política, mas sim, na minha modesta opinião, por não significar intelectualismo como sinônimo de academismo. O sociólogo era um homem que tinha uma vita activa a lá Hannah Arandt (ver a obra: A Condição Humana - escrito em 1958), ou seja, a ação como um instrumento de fazer política, de colocar em prática seus desejos e projetos políticos, o de pensar-agir. Já o não pensar nos torna igual a uma planta que existe por meio de fotossíntese. Acredito que pensar exige tempo e dedicação, faz parte do labor dos Homens.

Temo pela falta, em um futuro-presente, de pessoas - com pensamentos - pelas quais poderemos discordar e travar o bom debate, isto é, de uma a boa disputa de argumentos e contra argumentos. Tornamo-nos um aglomerado de pessoas cujo substantivo “Massa” subtraiu, não o indivíduo da esfera pública, mas a ideia de conviver com o contraditório. Tal fato é o pressuposto para a intolerância que nutre regimes corruptos e/ou totalitários a exemplo da nossa sociedade de consumidores que outorga no ter – objetos – o elemento fundamental das nossas relações sociais, excluindo tudo que critique esta tautologia. Não “bebo” das teorias do Florestan, todavia, não posso me furtar de ao caminhar no tempo, dialogar com o mestre. É necessária em nossa sociedade contemporânea uma transformação radical do indivíduo!

Sunday, January 31, 2010

Relações Exteriores do Brasil em Honduras.




Em Honduras, a flexibilidade política de Porfírio Lobo, empossado como presidente de Honduras no dia 27 de janeiro promete uma dinâmica política diferente. Porfírio Lobo é mais conhecido no país como “Pepe”. Sua posse no governo hondurenho não mudará a atitude brasileira de não reconhecer o pleito que ocorreu em novembro do ano passado, quando ainda estava no poder o chamado “governo de fato”, comandado por Roberto Micheletti. Pepe busca um rápido governo de consenso, pois a paralisia política afunilou a já colossal divida externa. O país é um grande exportador de produtos primários e com o regime de exceção, o país sofreu sanções econômicas do Conselho de Segurança da ONU, prejudicando toda a sua economia.

Manuel Zelaya, presidente destituído em 28 de junho do ano passado, conseguiu fazer um acordo com o Presidente Lobo. O acordo é pautado por uma anistia de todos os envolvidos com o regime militar e concedia um salvo conduto ao Zelaya, para que o mesmo deixe o país para ser recebido como “hóspede especial” na insular República Dominicana. A anistia acaba com o impasse que já ocorria há quatro meses, quando o ex-presidente deposto ocupava a embaixada brasileira em Tegucigalpa – capital de Honduras. Zelaya estava na embaixada desde 21 de setembro de 2009.

A situação do Brasil perante o ato do Presidente Porfírio Lobo, de anistiar todos os envolvidos no golpe, alivia a tensão política que o país sofria por manter Zelaya na embaixada. Essa ação do Itamaraty foi audaciosa porque Zelaya não era considerado exilado político e sim “abrigado” político, termo muito vago nas relações internacionais e insuficientes para assegurar proteção de Zelaya na embaixada.
O momento mais crítico foi quando os soldados hondurenhos cercaram a embaixada brasileira. O Brasil e a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) não reconhecem o governo de Pepe como legítimo, pois quando ocorreu o pleito Honduras encontra-se sobre um regime militar que obstruía a liberdade de imprensa. Todavia, vários países da América Central e os EUA reconhecem o resultado das eleições de novembro.

A situação atual não denigre a imagem das nossas relações exteriores na América Central, todavia, nesse caso específico deixa-a na inércia. Segundo o ministro Celso Amorim só nos resta esperar. Mas tudo indica que em um futuro próximo o governo brasileiro irá reconhecer o governo de Pepe. Claro, pode ocorrer que da República Dominicana, Zelaya monte um grupo de apoiadores e volte ao país, aí já é outro artigo.